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Capacidade em serviços de imagem: medir a agenda antes de comprar outra sala

Como separar capacidade disponível, agendada e realizada em raio-X, ultrassom e tomografia, achar o gargalo e testar um ajuste de agenda antes de investir.

Imagem editorial sobre gestão e indicadores

Fila longa em raio-X, ultrassom ou tomografia nem sempre indica falta de sala: parte da capacidade se perde entre o agendamento e o atendimento. Antes de investir, separe capacidade disponível, agendada e realizada, identifique a etapa limitante e teste um ajuste de agenda com indicadores definidos.

A fila de exames cresce, os pedidos de encaixe se multiplicam e a proposta que chega à diretoria é previsível: comprar outro equipamento ou abrir mais uma sala. Às vezes essa é a decisão correta. Mas, sem medir como as horas da sala existente são usadas, a organização corre o risco de reproduzir na sala nova as mesmas perdas da antiga: faltas não reaproveitadas, pacientes sem preparo, urgências que desorganizam a agenda e laudos que atrasam a entrega do resultado.

Este roteiro propõe uma forma simples de medir a capacidade real de um serviço de diagnóstico por imagem ou de um ambulatório com agenda por sala. A ideia central é distinguir quatro grandezas que costumam aparecer misturadas: capacidade disponível, capacidade agendada, capacidade realizada e a etapa que limita o fluxo. As recomendações são operacionais e precisam ser adaptadas ao serviço.

Separe quatro números antes de discutir expansão

Capacidade disponível é o tempo em que a sala pode efetivamente atender, já descontados manutenção preventiva, limpeza, troca de turno e intervalos previstos. Capacidade agendada é a parte desse tempo comprometida com exames marcados ou reservada para encaixes. Capacidade realizada é o tempo efetivamente ocupado por exames concluídos. A diferença entre esses números mostra onde a agenda perde horas, e cada perda tem dono e causa diferentes.

O quarto elemento é o gargalo, a etapa com menor capacidade no fluxo completo. Ele pode ser a sala, mas também a recepção, o preparo, a equipe técnica disponível no horário ou a emissão do laudo. Ampliar uma etapa que não limita o fluxo raramente reduz a espera do paciente. O IHI organiza a melhoria do fluxo em moldar a demanda, ajustar capacidade e demanda e redesenhar o sistema, com uso de dados para prever padrões de demanda e reduzir variação artificial na programação. [2]

Parâmetros nacionais também têm um papel delimitado. No SUS, os critérios e parâmetros de planejamento são referenciais quantitativos para estimar necessidades e orientar gestores, indicativos e sem caráter obrigatório, com possibilidade de adequação à realidade local. [1] Servem para dimensionar a rede, mas não dizem quanto uma sala específica entrega hoje. Essa resposta vem dos registros do próprio serviço.

Defina as horas disponíveis de cada sala

Comece por uma ficha por sala e por modalidade: horário de funcionamento, dias de atendimento, pausas programadas, janelas de manutenção, tempo de limpeza ou troca entre pacientes e períodos sem técnico escalado. Uma sala aberta doze horas, mas com técnico disponível em apenas oito, tem capacidade disponível de oito horas para aquele tipo de exame. Registre a regra e a vigência, porque escalas e contratos de manutenção mudam ao longo do ano.

Em seguida, estime a duração por tipo de exame, contando o tempo de sala do posicionamento à liberação, e não apenas o tempo de aquisição. Uma radiografia simples, um ultrassom com Doppler e uma tomografia com contraste ocupam a sala por tempos muito diferentes. Use medianas de registros recentes, por tipo de exame e por turno, em vez de um valor único herdado da implantação do sistema. Se o sistema não registra início e fim, uma amostragem manual de duas semanas já mostra a ordem de grandeza.

  • Horas de funcionamento: o que está no contrato ou na escala.
  • Horas disponíveis: funcionamento menos manutenção, limpeza, pausas e falta de equipe.
  • Vagas teóricas: horas disponíveis divididas pela duração mediana de cada tipo de exame, respeitando o mix planejado.

Como 50 horas disponíveis de uma sala de tomografia foram usadas

Exemplo de uma semana: eletivos realizados, 28 h; urgências e encaixes, 15 h (30% das 50 h, contra 20% planejados); faltas sem reaproveitamento, 3 h; sala parada por preparo incompleto, 3 h; atrasos entre exames além do previsto, 1 h. Total: 50 h.

EXEMPLO DE CÁLCULOExemplo para ilustrar o método.
Comparação por horas de sala na semanaAltere os valores para explorar um cenário.

Ver tabela dos dados de referência
Como 50 horas disponíveis de uma sala de tomografia foram usadas
Categoriahoras de sala na semana
Eletivos realizados28
Urgências e encaixes15
Faltas sem reaproveitamento3
Sala parada por preparo incompleto3
Atrasos entre exames1

Mapa de processo: do pedido ao laudo, com pontos de perda de capacidade

Mapa de processo para discutir responsabilidades e pontos de passagem com as equipes. Adapte ao contexto da instituição.

  1. 01

    Receber pedido

    Central de agendamento classifica origem, prioridade e tipo de exame.

  2. 02

    Agendar e confirmar

    Agenda aloca vaga eletiva ou reserva de encaixe; confirmação reduz faltas não reaproveitadas.

  3. 03

    Checar preparo

    Equipe confirma jejum, exames prévios e autorização antes do dia; pendências voltam ao solicitante.

  4. 04

    Realizar exame

    Técnico registra início, fim e motivo de qualquer exame não realizado.

  5. 05

    Emitir laudo

    Radiologista libera o laudo; tempo até a liberação é medido por modalidade e prioridade.

  6. 06

    Revisar capacidade

    Coordenação compara disponível, agendado e realizado e decide o próximo ajuste.

Baixar mapa editável

Compare a reserva planejada para encaixes com a ocupação real

Toda agenda de imagem que atende pronto-socorro ou internação precisa de espaço para urgências. O problema aparece quando a reserva planejada não corresponde ao que acontece. Considere, como exemplo, uma tomografia cuja agenda reserva 20% das horas disponíveis para encaixes e urgências, enquanto os registros mostram que urgências ocupam 30%. A diferença não desaparece: vira eletivos atrasados, remarcados ou atendidos em hora extra.

A resposta não é necessariamente aumentar a reserva para o maior valor observado. Examine a distribuição por dia da semana e faixa horária, porque urgências costumam se concentrar em períodos previsíveis. Uma reserva maior em determinados horários e menor em outros pode acomodar a demanda sem bloquear vagas que ficariam vazias. A decisão sobre prioridade clínica de cada pedido continua com os profissionais responsáveis; o desenho da agenda apenas cria espaço compatível com o padrão observado.

Trate faltas e cancelamentos como perda mensurável

Absenteísmo é uma perda direta de capacidade quando a vaga não é reaproveitada. Um estudo com mais de 3,3 milhões de agendamentos ambulatoriais de radiologia em uma instituição acadêmica nos Estados Unidos, entre 2000 e 2015, registrou 8,0% de cancelamentos e 2,6% de faltas, com associação entre faltas e fatores como renda, distância de deslocamento e clima. [3] Esses percentuais pertencem àquele contexto e não devem ser usados como referência para um serviço brasileiro.

O valor útil está no método: medir faltas e cancelamentos tardios separadamente, por modalidade, horário e antecedência do agendamento, e verificar quantas dessas vagas foram ocupadas por outro paciente. Confirmação ativa, lista de espera para chamada no mesmo dia e orientação de preparo enviada com antecedência são hipóteses a testar. Antes de adotar overbooking, avalie o efeito sobre atrasos e sobre a experiência de quem compareceu.

Inclua preparo e laudo no fluxo, não só a sala

Um exame que não pode ser realizado porque o paciente chegou sem jejum, sem exame laboratorial exigido ou sem autorização consome tempo de sala e não produz resultado. Registre o motivo de cada exame não realizado com categorias fechadas. Se o preparo incompleto se repete, a correção está na orientação, na checagem prévia ou na comunicação com a unidade solicitante, e não no número de salas.

Do ponto de vista de quem pediu o exame, o serviço termina quando o laudo está disponível. Um estudo em pronto-socorro nos Países Baixos separou o tempo total do departamento de radiologia em componentes e, após intervenções Lean com radiologista dedicado nos horários de pico, observou queda da mediana do tempo total de 70 para 36 minutos e do tempo de laudo de 37 para 11 minutos, com tempo de exame praticamente estável. [4] O ponto para a gestão é que o atraso estava fora da sala. Medir apenas a ocupação do equipamento teria escondido essa etapa.

Exemplo de cálculo: para onde foram 50 horas de sala

Imagine uma sala de tomografia com 60 horas semanais de funcionamento e 50 horas disponíveis após manutenção, limpeza e pausas. A agenda planejou 40 horas de eletivos e 10 horas, ou 20%, para encaixes e urgências. Na semana observada, urgências e encaixes ocuparam 15 horas, ou 30% do disponível: as 10 horas reservadas, 4 horas tomadas de eletivos, que foram remarcados, e 1 hora de faltas reaproveitada.

Das 40 horas de eletivos, 4 foram deslocadas pelas urgências e 4 corresponderam a faltas, das quais 3 ficaram ociosas. Outras 3 horas de sala foram perdidas com pacientes sem preparo e 1 hora com atrasos entre exames além do previsto. Restaram 28 horas de eletivos realizados. Somando 28 e 15, a sala realizou exames em 43 das 50 horas, 86% do disponível. As 7 horas restantes não exigem uma sala nova; exigem regras de reaproveitamento, preparo e intervalo.

O gráfico mostra essa distribuição. Os números ilustram a conta e não são referência de mercado. Na prática, a mesma análise deve ser repetida por várias semanas antes de qualquer conclusão, porque uma semana atípica distorce a leitura.

Monte um dicionário curto de indicadores de capacidade

Cada indicador precisa de fórmula, fonte, frequência e responsável, para que duas pessoas cheguem ao mesmo número a partir dos mesmos registros. A lista abaixo é uma proposta mínima, a ser ajustada aos sistemas disponíveis. As fórmulas completas e os cuidados de interpretação estão na seção de indicadores deste artigo.

  • Ocupação realizada da sala: horas com exame concluído dividido por horas disponíveis. Fonte: sistema de agenda e registros de início e fim. Frequência: semanal. Responsável: coordenação do serviço de imagem.
  • Ocupação por urgências e encaixes: horas de urgência e encaixe dividido por horas disponíveis, comparadas à reserva planejada. Fonte: agenda com marcação de origem do pedido. Frequência: semanal, por faixa horária. Responsável: coordenação da agenda.
  • Absenteísmo: faltas dividido por exames agendados confirmados. Fonte: agenda e recepção. Frequência: semanal, por modalidade. Responsável: central de agendamento.
  • Perda por preparo: horas de sala perdidas com exame não realizado por preparo incompleto. Fonte: registro de motivo na sala. Frequência: mensal. Responsável: enfermagem ou técnico responsável pelo turno.
  • Tempo até o laudo: mediana entre fim do exame e liberação do laudo, por modalidade e prioridade. Fonte: sistema de laudos. Frequência: semanal. Responsável: coordenação médica do serviço.

Teste um ajuste de agenda antes de comprar uma sala

Escolha uma modalidade e uma mudança delimitada: redistribuir a reserva de urgências por faixa horária, criar lista de chamada para vagas liberadas por falta ou checar preparo dois dias antes do exame. Defina o período de teste, a linha de base, os indicadores acompanhados e um indicador de equilíbrio, como tempo de espera das urgências, para garantir que a melhoria em um ponto não piore outro.

Ao final, compare as horas realizadas, o tempo até o laudo e o tempo de espera por exame com a linha de base. Se, mesmo com perdas reduzidas, a demanda continuar acima da capacidade realizada, o caso para expansão fica mais sólido, porque mostra quanto falta e em qual etapa. Essa é uma recomendação operacional, não uma promessa de ganho; o resultado depende do serviço, da demanda e das restrições locais.

Checklist para discutir com a equipe

Marque os pontos que já estão definidos. Use o restante como pauta de trabalho.

Indicadores com definição clara

Ocupação realizada da sala

100 × horas de sala com exame concluído / horas disponíveis da sala no período, descontados manutenção, limpeza e pausas previstas.

Ocupação alta com fila crescente sugere restrição real; ocupação baixa com fila indica perdas na agenda ou gargalo fora da sala. Não existe meta universal.

Ocupação por urgências e encaixes

100 × horas ocupadas por urgências e encaixes / horas disponíveis, apresentada ao lado da reserva planejada para o mesmo período e faixa horária.

A diferença entre planejado e realizado mostra quanto do eletivo foi deslocado. Classificar a origem do pedido no momento do agendamento.

Absenteísmo em exames agendados

100 × pacientes que não compareceram / exames agendados no período, por modalidade; cancelamentos com aviso prévio em série separada.

Acompanhar junto a proporção de vagas reaproveitadas, que indica quanto da falta virou perda efetiva de capacidade.

Tempo até o laudo

Mediana, em horas ou minutos, entre o fim do exame e a liberação do laudo, por modalidade e prioridade.

Exibir também um percentil alto, como o 90, para revelar casos demorados. Mudanças no fluxo de assinatura alteram a série.

Dúvidas sobre o tema

Qual é a taxa de ocupação ideal de uma sala de imagem?

Este artigo não define uma meta universal. A ocupação adequada depende do mix de exames, da demanda de urgência e da folga necessária para absorver variação. Defina a meta localmente, junto com indicadores de espera.

Vale a pena fazer overbooking para compensar faltas?

Pode ser uma hipótese, mas só depois de medir faltas por modalidade e horário. Overbooking sem dados aumenta atrasos para quem comparece. Teste em um período delimitado e acompanhe o tempo de espera.

Por que incluir o tempo de laudo em uma análise de capacidade?

Porque o solicitante só pode decidir com o resultado. Se o laudo demora, ampliar salas aumenta o volume de exames aguardando laudo sem reduzir o tempo até a decisão. [4]

Fontes e referências

Fontes primárias usadas na produção do conteúdo. As recomendações de implantação devem ser adaptadas e validadas pela instituição.

  1. Portaria de Consolidação nº 1, de 28 de setembro de 2017, arts. 102 a 106 (origem: Portaria GM/MS 1.631/2015) Ministério da Saúde, Saúde Legis · Consulta: 2026-10-27

    Critérios e parâmetros do SUS como referenciais quantitativos indicativos, sem caráter obrigatório, adaptáveis à realidade local, para planejamento e programação.

  2. Achieving Hospital-wide Patient Flow (Second Edition) Institute for Healthcare Improvement · Consulta: 2026-10-27

    Moldar a demanda, ajustar capacidade e demanda e redesenhar o sistema; uso de dados para prever demanda e reduzir variação artificial na programação.

  3. Environmental Factors Predictive of No-Show Visits in Radiology: Observations of Three Million Outpatient Imaging Visits Over 16 Years Journal of the American College of Radiology, 2019 (PubMed) · Consulta: 2026-10-27

    3.379.947 agendamentos ambulatoriais de radiologia entre 2000 e 2015, 8,0% de cancelamentos e 2,6% de faltas, associação com renda, distância e clima.

  4. Lean-driven interventions, including a dedicated radiologist, improve diagnostic imaging turnaround time and radiology report time at the emergency department Emergency Radiology, 2021 (PubMed) · Consulta: 2026-10-27

    Decomposição do tempo de radiologia no pronto-socorro; medianas de tempo total de 70 para 36 minutos e de laudo de 37 para 11 minutos, com tempo de exame estável.

Conteúdo educativo de gestão e tecnologia. Não substitui avaliação profissional, normas vigentes ou protocolos assistenciais.